sábado, 12 de dezembro de 2009

Reflectindo acerca do papel da escola e da família ...

Fui abordada há uns dias, por um encarregado de educação, para esclarecimento acerca de sugestões feitas por mim ao seu educando, relativamente ao seu lanche da manhã, tendo em vista um lanche mais variado e mais saudável, à luz do nosso conhecimento sobre o assunto. Desde daí, e foi apenas a alguns dias atrás, tenho reflectido bastante acerca desse “pedido de esclarecimento” e acerca do “mas cabe-nos a nós, família, …” .
Assim, neste espaço público, mas que não se quer anónimo (pelo menos para as 25 crianças e respectivas famílias, que “habitam” o espaço onde trabalho, durante um tempo útil superior àquele que habitam as suas próprias casa, pelo menos para algumas crianças), parece-me importante reforçar, também aqui, o seguinte: já a Constituição da República refere no seu Artigo 36.º, ponto 5, que “Os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos” e também as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, referem que “a educação pré-escolar é a primeira etapa da educação básica no processo de educação ao longo da vida, sendo complementar da acção educativa da família”. Pois bem, quer isto dizer que a escola não pretende substituir a família num direito e num dever que é seu exclusivamente, mas tem com ela relações de “parceria no que se relaciona com a educação da criança”, ou seja, como técnico de educação, qualificado para o desempenho das suas funções, qualquer professor tem o direito, o dever e a obrigação de promover a aprendizagem dos seus alunos e também, a aconselhar os encarregados de educação acerca de qualquer assunto que se relacione com o bem-estar, saúde e educação do seu/sua filho/a. Contudo, compete aos pais, ou aos seus substitutos, aceitar ou não esse aconselhamento, pois a criança é da sua responsabilidade. No entanto, é da responsabilidade do educador tudo aquilo que veicula dentro e fora da sua sala de aula, tendo plena consciência do “impacto” que as suas palavras têm sobre as crianças, fundamentando-se teoricamente num quadro referencial que se consubstanciou na sua formação académica. No meu caso, e para tranquilizar, e mesmo esclarecer qualquer dúvida acerca da minha prática, refiro que a área das Ciências da Educação e a área da Saúde, são áreas na qual me “movimento muito bem”, pois adquiri formação específica em ambas as áreas, para além do bacharelato em Educação de Infância (obtido em 1984), que me habilita para a docência.
Educador reflexivo sobre a sua prática, constantemente procuro o esclarecimento de qualquer dúvida que me surja e, geralmente, encontro a resposta na formação contínua ou no diálogo com outros docentes. Também tem sido através da formação contínua, primeiro através da licenciatura (Ciências da Educação, FPCEL) e depois através do mestrado (Saúde Escolar, FML), a que se acrescenta a participação em inúmeras acções de formação de curta e longa duração, congressos, seminários e encontros, que tenho também progredido na carreira, assim como tenho, fruto dessa formação e reflexão, evoluído qualitativamente no desempenho das minhas funções. Tudo isto, apenas para dizer que, embora o conhecimento seja ilimitado e que temos a noção do quanto limitado é o conhecimento de cada um relativamente a um todo, nada do que afirmo, ou faço, perante uma criança, é feito de forma irreflectida e/ou ao acaso. E quando não sei, apenas digo:”olha, eu não sei, mas vou procurar saber”. E não deve ser assim que todos nos devemos posicionar na vida? Com honestidade e humildade perante o nosso saber e as nossas limitações? Honestidade e humildade perante o outro?

E, por favor, se este post lhe merece algum tipo de comentário, por favor identifique-se. Não o faça anonimamente.
Obrigado.

Em relação a este post, ontem, dia 1 de Janeiro de 2010,uma amiga que desempenha funções na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa como Técnica Superior de Educação e que acompanha crianças negligenciadas pela família,salientou-me o seguinte: o papel da família termina quando maltrata ou negligencia a criança e, nessa situação, a escola, e mesmo a sociedade, tem de desempenhar o seu papel, intervindo a favor do bem-estar da criança. Os maus-tratos não são apenas os físicos e os emocionais, mas também os alimentares e os pais de uma criança obesa devem ser referenciados aos organismos competentes para uma intervenção junto destes, tendo em vista o interesse superior da criança.
Segundo a Organização Mundial de Saúde uma criança ou adolescente é considerado obeso quando o seu índice de massa corporal (IMC) é igual ou superior ao percentil 95.
Mais alguma informação aqui.
Amiga Luísa, agradeço o teu contributo, foi uma mais-valia importante.

4 Comments:

Lenita said...

Apenas para dizer que faço minhas as suas palavras.
Certos maús hábitos alimentares são difíceis de abolir, até porque é mais fácil colocar um "bolicau" (ou afins) na mochila, do que prepar pela manhã uma sande de pão freco com uma fatia de queijo!
Depois as crianças muitas vezes não são educadas pelos pais neste campo, pelo contrário elas mandam nas compras que se fazem no supermercado...
A publicidade também reforça todos estes comportamentos incorrectos e prejudíciais, veja-se como um bolo de chocolate é apresentado como um "lanche caseiro e saúdavel"!
Cabe-nos o papel, por vezes ingrato e mal compreendido, de educar meninos e pais para hábitos de alimentação saúdavel.
Parabens colega.
Bjs

Galega Encarnada said...

Pois posso dizer-te que, após 3 anos de frequência na minha sala, isto originou até um pedido para a criança mudar de sala, alegadamente porque a criança está "traumatizada" com a simples sugestão para um lanche mais variado, perante evidências físicas da oportuna sugestão.

Galega Encarnada said...

Questiono-me agora para que Escola estamos nós a caminhar ...

Galega Encarnada said...

Esqueci de agradecer-te, Lenita, o comentário. É sempre bom quando temos o feed-back de quem nos lê. Obrigado.

 
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